Estimado Leitor,
Diz o ditado que uma imagem vale mais que mil palavras. As fotos ilustrativas referem-se a herança colonial. Por isso transcrevo e compartilho com a rede um e-mail na integra enviado pelo nosso querido irmão moçambicano António Matabele. Para nós que estamos do outro lado do atlântico não parece nada o assunto entre eles exposto. Mas, se pararmos para observar a história brasileira e seus reflexos, acredito que também tem muito a ver conosco as questões levantadas.
"Amigo e Senhor André Stakteas – Muito agradecido pelas imagens que Vxª. teve a amabilidade e o cuidado de partilhar comigo. Faço minha a tristeza de Vxª. ante ambas as imagens decorridos que foram apenas 36 anos entre a data da nossa independência e a derrocada do Grande Hotel, no diapasão de muita coisa – que não era para a maioria do povo e que este nem foi nem nunca autorizado para usufruir, e muito menos foi educado para gerir aquele tipo de infra-estruturas – que, infelizmente, quebramos após o alvor da nossa libertação do jugo colonial de quase 500 anos formais e quase 100 efectivos (depois da partilha de África no Tratado/Conferência de Berlim que decorreu de 19 de Novembro de 1884 a 26 de Fevereiro de 1885), quando Portugal foi obrigado a exercer a colonização, de facto ou efectiva, das suas possessões territoriais em África, sob pena de as perder. Choro, igualmente com Vxª. o facto de nas duas primeiras imagens ser notório e flagrante que não há pretos de entre os utentes daquelas paradisíacas infra-estrururas e que nas duas últimas desoladoras imagens, penas se vejam pretos que, por miséria, euforia, desconhecimento, indisciplina, deseducação e impreparação, transformaram o Grande Hotel em abrigo definitivo dos recém-vindos do meio rural para as cidades. Não quero que Vxª. concorde comigo, mas eu gostaria de – sózinho – me recordar que o nosso povo nunca foi instruído para ser agente activo (ou fazedor activo) do progresso que se pretendia “construir” em Moçambique pelos portugueses.
Apenas em 1961 foi “abolido” formalmente o estatuto do indigenato, que era aquele que legalizava e legitimava a injustiça contra os aborígenes desta terra. Por exemplo, permitindo a administração de um ensino de qualidade muito inferior para os pretos não assimilados. Sua Eminência Reverendíssima Dom Teodósio Gouveia, ex-Cardeal Primaz de Lourenço Marques (que o Bom Deus tenha a sua alma guardada em bom lugar) é citado como tendo proferido em plena Sé Catedral uma homília lapidar em que dizia que “não podemos ensinar aos pretos para além da 3ª. Classe Rudimentar que é o bastante para eles saberem ler o catecismo católico”. Eu próprio comecei a estudar numa escola (Escola Capela de São João Baptista) para crianças indígenas e só passei para a escola oficial do Posto Administrativo de Muatua quando o meu pai deixou de ser Auxiliar Indígena de Enfermagem e passou a ser Auxiliar de Enfermagem porque já tinha conseguido “ascender” ao escalão de assimilado. Em linhas muito breves e estamos concordantes num aspecto objectivo: somos, infelizmente, maus gestores das nossas coisas públicas e privadas. Mas agora gostaria que me corrigisse se estou a tentar conduzi-lo para conclusões falaciosas ou equivocadas e pergunto a Vxª. o seguinte: o que se esperava que sucedesse a um povo que foi planificadamente deseducado durante 500 ou 100 anos e que em 1975 (não havia mais do que 50 licenciados pretos em Moçambique e na Universidade de Lourenço Marques, com um universo estudantil de 4 Mil alunos éramos apenas 40 pretos = 1/1000).
E foi deste povo, totalmente mergulhado nesta impreparação (perdoe-me pelo brasileirismo), que foi obrigado a conduzir – como Presidente da República, Ministros, Governadores, etc – este país de gente ignorante e deseducada para gerir coisas das cidades, do meio rural, enfim, de todo o país na sua globalidade. Acredito que Vxª. não é daqueles que cai na armadilha da argumentação simplista defendendo que “se o povo não estava preparado para gerir o seu país que se adiasse a independência para mais tarde ou que não reivindicasse a sua independência”. Acredito que Vxª. é dos que defende que da mesma forma como Portugal se libertou no dia 1º. de Dezembro de 1640 pela Espada do Duque de Bragança (mais tarde Dom João IV) do jugo de 60 anos dos espanhóis, que os moçambicanos, por maioria de razão, deveriam também ser independentes depois de 500 anos de escravatura e colonialismo protagonizados, respectivamente, pelos árabes e portugueses e até entre nós mesmos. Os ex-colonos dos hoje Estados Unidos da América, também, e apesar de serem todos oriundos da Europa e maioritariamente ingleses, decidiram romper com a Coroa Britânica. Entretanto, os que assumiram os comandos da nova nação eram uma elite em termos de capacidade de gestão. Impediram que os índios e os escravos pretos impreparados gerissem o país. Portanto, resumindo e concatenando: comungamos o mesmo sofrimento de vermos o nosso povo triste por não poder usufruir das “coisas boas” herdadas do colonialismo português (os Grande Hotel espalhados por este imenso país) que nunca quis que as mesmas fossem também usufruídas pela maioria das populações indígenas. Vxª. concorda comigo que o colonialismo foi tão desastrado na administração da educação para os pretos em Moçambique que nem sequer quis “copiar” e exemplo inglês que tinha a Universidade de Makerere, no Uganda, fundada em 1922, sob os auspícios académicos e científicos da Universidade de Londres, de quem recebia patronagem de índole diversa, é uma das mais antigas e mais prestigiadas universidades de Àfrica e era destinada a preparar uma elite de pretos, filhos dos régulos e dos sobas, do próprio Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quénia, Zâmbia, Malawi, para poderem continuar a gerir os seus países segundo padrões ocidentalmente aceitáveis após uma eventual saída dos colonizadores britânicos. Isto é, os colonos britânicos sabiam que um dia teriam que abandonar as suas colónias, mas queriam deixar uma massa crítica que não hostilizasse a cultura nem a civilização britânicas. Em Moçambique colonial os portugueses – também ignorantes – pensavam que os pretos jamais se libertariam e iam tentando adormecê-los com campanhas de psico-social em que o processo da assimilação era uma delas e a mais nociva. Em resultado disto e deste vazio de quadros tecnicamente preparados, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) viu-se obrigada a indicar Ministros da sua confiança política com pouca ou nenhuma preparação em matéria de gestão pública. E isto deu-se depois em cascata para os escalões de governação mais abaixo e até nas empresas, nas casas e nas famílias que, num ápice, deixamos de viver em palhotas e casebres insalubres e, legitimamente, sentimo-nos com o direito e o estatuto de viver em prédios urbanos para os quais não fomos preparados nem educados para neles sabermos estar. Como dizem os jovens: estamos juntos nesta dor de ver o nosso querido país quebrado por nós próprios que para além do esforço titânico que temos feito para colmatar a situação, não é em apenas 36 anos que se curam lacunas e feridas propositadamente abertas em 500 ou 100 anos. O tecido social (social fabric) não se regenera em meia dúzia de anos, quando o mesmo foi estragado, de forma intencional e planificada, durante séculos. Melhores cumprimentos. E se extravasei para o insultuoso, suplico que Vxª. me perdoe porque não era essa a minha intenção. Apenas queria inter-agir face ao favor que fez de me mandar aquelas tristes fotos de ontem e de hoje. Mas o “hoje” foi estragado por quem nos governou “ontem” do mesmo modo que eu pouco me devo queixar “hoje” da educação que proporcionei aos meus filhos “ontem”. Não acuso ninguém, apenas partilho as minhas modestas opiniões com Vxª."
Obrigado,
António Matabele - Moçambique
Agradecimentos pela colaboração: Oubí Inaê Kibuko
Divulgação solidária: Quilombocine e Cabeças Falantes




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